A Manifestação de uma Polícia Militar política e militante — Opinião

O último Domingo (31), e também o último dia do mês de Maio se tornou histórico.

As torcidas dos quatro grandes times do Estado de São Paulo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, romperam suas rivalidades históricas e se uniram em um ato Pró-democracia na Avenida Paulista. Em concentração no vão do MASP, museu que é cartão postal da cidade e serve como ponto de referência e de ornamento da avenida mais famosa da Capital. As torcidas organizaram-se vestidas de preto, quebrando a tradição das cores tradicionais representando seus respectivos time, como signo de união. É possível ver no vídeo a seguir que, apesar de enérgica, a manifestação era pacífica até então.

Cerca de duas quadras daquele local também se concentravam manifestantes, estes, por sua vez, vestindo camisetas das Confederação Brasileira de Futebol e enrolados na Bandeira do Brasil. Eram os manifestantes de um ato pró-Bolsonaro, que trazia em suas placas entre suas pautas tradicionais: o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, a volta do AI-5, além da abertura do comércio em meio à atual Pandemia.

E desta vez também era possível ver faixas com os escritos “Sem Censura”, possivelmente em alusão à atual luta do Presidente Jair Bolsonaro para que o espalhamento de fake news seja absorvido dentro do conceito constitucional de Liberdade de Expressão. Isso ocorre logo após a Polícia Federal realizar busca e apreensão na casa de empresários e deputados apoiadores do Presidente, além de sua quebra de sigilo bancário, sob acusação destes serem financiadores de um esquema de divulgação e impulsionamento massivo de notícias falsas, com finalidade de manter a fiel base apoiadora do Presidente.

Apoiadores do governo Bolsonaro exibem bandeira preta e vermelha com símbolo que também é usado por grupo de extrema direita ucraniano durante manifestação na Avenida Paulista, região central da cidade, neste domingo (31) — Foto: Ettore Chierguini/Estadão Conteúdo

Esta era a imagem da Avenida Paulista se tornando, mais uma vez, o epicentro de uma polarização política: de lado um ato pró-Democracia, de outro um ato pró-Bolsonaro.

A Polícia Militar também estava presente no ato. Segundo o secretário executivo da instituição, o papel era de manter a ordem, não importando qual lado estivesse sem. Aparentemente a presença de policiais militares tinha o objetivo de garantir a segurança de todos os manifestantes ali presentes. Conforme sua mera obrigação enquanto braço da Segurança Pública.

“Nos colocamos entre os grupos para evitar que se confrontassem. A Polícia vai agir para manter a ordem, não interessa o grupo. Os que quebrarem a ordem pública serão alvo da Polícia”

– Coronel Álvaro Batista Camilo, secretário executivo da polícia militar, em entrevista à GloboNews.

Segundo relato de pessoas que acompanharam o ato, coisa que também foi possível verificar ao vivo pela transmissão da GloboNews, um cordão de policiais militares de coletes amarelo fluorescente de fato isolava cada um dos grupos. Mas a posição das viaturas da Tropa de Choque e da Força Tática da Policia Militar de São Paulo era emblemática: estavam voltadas, apontadas e mais próximas do lado dos manifestantes pró-Democracia.

As manifestações de Junho de 2013 foram marcadas por seu início ser permeado por muitos confrontos entre manifestantes e Polícia Militar.

 

Um susto levou quem estava acompanhando o ato ao vivo pela TV. Se por um momento tudo parecia estar pacífico, no outro as cenas vistas por quem, como eu, estava nos Protestos de Junho 2013, pareciam ter sido remasterizadas na memória: em uma espécie de edição comemorativa dos 7 anos daquela que ficou conhecida como a Revolta dos 20 Centavos ou Revolta do Vinagre, cenas inéditas deste seu fim encontram algum tipo de equivalência, surgem quase como um déjà vu.

Troca de insultos entre manifestantes. É possível ver que o manifestante do movimento das torcidas organizadas pró-democracia utilizava uma camiseta de Malcolm X, importante peça na Luta por Direitos dos Negros do Estados Unidos.  Ao mesmo tempo em que ocorria essa manifestação no Brasil, os EUA estão neste momento sob intensa revolta de manifestantes cobrando pela justiça ao assassinato de George Floyd, um negro norte-americano vítima de um impiedoso homídio cometido por policiais de Minneapolis.

Após alguns desentendimentos e confrontos entre manifestantes dos dois lados, a Tropa de Choque ganhou seus holofotes. O motivo exato do estopim ainda parece ser incerto, mas muito se indica tudo ficara mais acalorado após um manifestante pró-Bolsonaro, indicado por carregar consigo uma bandeira atribuída ao neonazismo, furar o bloqueio da polícia e se direcionar aos manifestantes pró-Democracia.

Em um outro momento, uma mulher apoiadora de Bolsonaro, invade a área dos manifestantes pró-Democracia com seu taco de baseball — que ironiza pessoas que sofrem de ansiedade e precisam tomar medicamentos como o clonazepam. O taco em questão tinha a carregava Rivotril escrito em si, numa sádica referência à capacidade sedativa do benzodiazepínico que costuma ter como seu principal efeito colateral a sonolência. Literalmente: ele, “da mesma forma” que faz uma pancada na cabeça, te bota pra dormir.

Imagem do vídeo que registra o momento em que a manifestante pró-Bolsonaro é escoltada por policial militar.

A polícia militar correu a socorrer a mulher que nada parecia estar em apuros, conduzindo-a como se fosse uma espécie de indefeso e frágil patrimônio público, de volta ao seu devido lugar na Avenida Paulista. Quase que a protegendo de eventos futuros que poderiam acontecer naquele perímetro em específico. Seu direito ao porte de arma branca foi amplamente defendido, enquanto do outro lado houve detenções pelo mesmo motivo. O vídeo da escolta à manifestante com o rosto coberto pela bandeira dos Estados Unidos poderá ser visto clicando aqui.

Não muito depois deste evento, por volta das 14 horas, os integrantes da Tropa de Choque passaram a ter seu mais comum reflexo condicionado: atiravam balas de borracha, bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. Os manifestantes revidaram com pedras e barricadas na Avenida Paulista por aproximadamente uma hora, até haver a dispersão total de uma das partes. Sim. Uma das partes.

A emblemática atuação violenta da Tropa de Choque: o cerco da Polícia se mostrou fechado com Bolsonaro. A Polícia Militar passou a militar. Iniciou sua Luta Armada em favor da Causa. A partir deste momento se tornou política e militante. O ataque da Polícia Militar foi em direção aos manifestantes pró-Democracia.

Imagem da Tropa de Choque avançando contra manifestantes na Avenida Paulista. A nuvem de fumaça é o gás lacrimogêneo empregado.

Enquanto os manifestantes contrários a Bolsonaro recebiam toda a truculência, toda a violência policial na altura do MASP, um pouco mais atrás, próximo à FIESP, os manifestantes pró-Bolsonaro ocupavam tranquilamente a retaguarda da Tropa. Talvez tenha até faltado um gesto de carinho, mas a estes sobrou o acolhimento de uma corporação que mais parecia ser titereada por quem fosse da ideologia predominante entre seus membros.

Nas Manifestações de 2015, que pediam pelo Impeachment de Dilma Rousseff, imagens da polícia militar tirando selfie com manifestantes e vice-versa, eram algo comum.

Até o momento da publicação deste artigo, não foi possível apurar se a Tropa de Choque tirou selfies com os manifestantes pró-Bolsonaro no ato deste domingo (31).

Policiais militares e manifestantes pró-democracia e contrários ao presidente Jair Bolsonaro, entram em choque durante um ato que teve início em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, na tarde deste domingo, 31 de maio de 2020
Foto: TABA BENEDICTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Se o Governador João Dória realmente acredita que “A presença da PM evitou o confronto e as prováveis vítimas deste embate […]”, alguém precisa avisar aos médicos e farmacêuticos a necessidade de inserir uma nova contraindicação na bula da toxina botulínica: pode ocasionar perda de visão. Principalmente da visão política de sua própria polícia.

Manifestantes pró-Bolsonaro com faixa de “Fora Dória”, em referência ao Governador.

Enquanto o Coronel Camilo afirmou que a PM “não é contra nem a favor”, e que está lá “para proteger o cidadão de bem”, a Avenida Paulista lembrava os primeiros dias das Jornadas de Junho de 2013, aqueles onde os políticos e a grande mídia ainda não sabiam da existência de “baderneiros infiltrados em uma manifestação pacífica” e considerava, de antemão, todos vagabundos e vândalos em potencial — e aí a truculência acontecia de forma preventiva.

Após a dispersão dos manifestantes pró-democracia, que após as bombas e balas de borracha chegaram a fazer barricadas com caçambas de entulho, sacos de lixo e até fogo, a Polícia Militar descansou e voltou a cuidar dos seus. Os manifestantes pró-Bolsonaro continuaram em paz seu desfile, exibindo suas ingratas faixas de “Fora Dória!”, alternada com outras pedindo o fim de qualquer oposição de Bolsonaro. Algo que parece, cada vez mais, ser sinônimo da própria Constituição.

Se a ingratidão destes manifestantes a respeito da nossa atual maior guardiã da paz — a Constituição Federal de 1988 — for igual àquela que expressaram ao Governador João Dória, que lhes ofereceu neste ato a própria PM de segurança e combatente particular! Se estivermos falando de pessoas cegas ou ingratas neste nível: precisamos nos preocupar mesmo com a democracia. Afinal, ela foi a única que apanhou.

Em paralelo ao ato histórico na principal avenida de São Paulo, em Brasília o Presidente Jair Bolsonaro cavalgava junto à Polícia Militar, acenando do alto do cavalo, no tocante aos que ali foram lhe apoiar.

Mais imagens sobre a manifestação de ontem, inclusive de momentos do confronto, podem ser vistas no vídeo a seguir: