A Teoria: As Origens do Nome Bolsonaro — Na Mira.

Aviso: este artigo faz parte de uma série dividida em três partes: A História (Parte 1); O Significado (Parte 2) e A Teoria (Parte 3).

Leia as Partes 1 e 2 antes de prosseguir.

A História — Parte 1: o contexto histórico, geográfico, antropológico e político da região onde se instalam os ascendentes italianos de Jair Messias Bolsonaro.

O Significado —Parte 2: as origens do nome Jair Messias Bolsonaro dentro da cidade onde se tem o último registro de seus antepassados diretos antes da vinda ao Brasil.

A Teoria — Parte 3: considerações linguísticas e psicanalíticas a respeito da teoria do Nome Próprio em conjunto com uma possível articulação entre as duas primeiras partes.

Você poderá acessar diretamente cada uma das partes clicando nos links acima ou a seguir:

Clique aqui para acessar a Parte 1.

Clique aqui para acessar a Parte 2.

Você está lendo a Parte 2.

O Nome Próprio

Neste momento do texto, já sabemos o sobrenome de Bolsonaro tem sua origem no Norte da Itália, na região do Vêneto. A contextualização histórica dos conflitos enfrentados naquela região trouxe elementos, que nos instigam a pensar nas incidências ou coincidências que se inscreveram naquela cultura. A pergunta que se faz aqui é: será que um nome é capaz de absorver algum tipo de traço, mesmo que apenas um rastro, da cultura que serviu de berço para seu pronunciamento?

Todo mundo tem um nome. É inclusive uma obrigação Legal em nossa sociedade atual que as pessoas sejam registradas com algo que as possa distinguir. Sabemos que o crescimento populacional trouxe novos artifícios para que isso aconteça, como números de registro, por exemplo. Mas é bem possível que em tempos mais distantes, além das características físicas, o nome fosse uma das únicas formas de distinguir alguém de outro.

Não é a primeira vez que resolvo escrever sobre este assunto. Em um texto escrito ao Blog Sociedade dos Psicólogos (spsicologos.com) chamado “Nomeando”, tento contar um pouco sobre como se deu este processo de batismo ao longo de algum período de nossa história, me limitando aos nomes mais comuns de Portugal apontados em uma pesquisa. Exatamente, os Nomes Próprios são assunto de pesquisa acadêmica. Se algum (a) leitor (a) também já, assim como eu, passou algum tempo de meus dias pensando sobre as razões em volta da palavra que, provavelmente, cada um de nós mais irá ouvir na vida, saibam que não somos os únicos! Muito pelo contrário, existe uma vasta área de estudos debruçada exatamente neste assunto. E é claro que ela mesma também tem um nome.

A Onomástica

Palavra em Grego para Onomástica. Imagem obtida no Wikipédia.

Dentro da Lexicologia — a ciência linguística que estuda o conjunto de palavras, as representações sígnicas de uma cultura, assim como as percepções e experiências multisseculares de um povo — existe a Onomástica, a parte que representa os conceitos, ideias, sentimentos, expectativas e heranças cristalizadas dentro do signo da expressão de si mesmo. Este signo que designa o ser humano no mundo Simbólico da linguagem, marca alguém pela vida toda: o Nome Próprio. (SEABRA, 2006).

Mas se existe uma ciência que estuda a origem dos nomes, ela ao menos explica o nome dela própria? Parece que sim. A pesquisadora de sobrenomes italianos Maria Vitalina FROSI (2014) nos ajudou a entender um pouco mais sobre o termo:

“A palavra onomástica tem sua origem no grego “onomastikḗ [technē]” [ou seja]: arte de denominar; no latim, a palavra assume a forma onomasticon” (p.392).

Bom, temos uma ciência que explica. Mas a onomástica também tem suas subdivisões. E falaremos sobre elas. Você já deve ter percebido que alguns nomes podem lembrar muito o nome de um objeto, de lugares e até de pessoas. Por exemplo: algumas pessoas têm nomes idênticos ou parecidos com algumas regiões do mundo; bem como alguns países, cidades e estados, também são nomeados de maneira semelhante ou igual à personalidades importantes àquela região. E estes conceitos são explicados pela mesma autora:

A onomástica compreende dois campos de estudo igualmente importantes: a antroponímia e a toponímia. A toponímia refere-se aos nomes próprios de lugar; a antroponímia compreende o estudo dos nomes próprios de pessoas (Idem).

O Nome como forma de Distinguir

Os Batismo são cerimônias que entrelaçam um nome a um contexto religioso cristão.

Lembro-me que, quando era uma criança, um dos maiores desconfortos de minha vida era chamar alguém pelo meu próprio nome. Em verdade, hoje em dia isso é apenas menor, nunca foi ausente. Por mais que eu tenha aprendido a batizar meus homônimos de “Xará”, “Velho”, “Mano” e “Brother” com a maior naturalidade, a verdade é que ainda sinto certo desconforto no uso de meu nome para coisa que não seja me apresentar. Chamar alguém pelo sobrenome também era um ótimo refúgio para este tipo de distinção.

Penso que não estamos acostumados com nosso nome endereçado a alguém que não nós mesmos. Muito menos quando quem endereça este nome é nossa própria voz, mais habituada a chamar por outros nomes. E faz sentido se pensarmos que cada nome tem uma história particular própria, que foi cultivada por algum momento na mente de nossos criadores. E será que outra pessoa conseguiria compartilhar da mesma coisa? Ainda bem que alguém já falou sobre isso antes:

“o nome próprio de pessoa é um signo linguístico – enquanto constituído por uma particular forma fônica ou série de fonemas – que tem a função de identificar e distinguir, no interior de uma coletividade, um determinado indivíduo”.

(De Felice, 1982, p. 127 apud FROSI, 2014)

O Nome Próprio para a Psicanálise

Apesar de ser acolhedor a quem se sente desconfortável em dizer o próprio nome, alguns psicanalistas divergem parcialmente da afirmação citada no parágrafo anterior. Então o que é um Nome Próprio para a psicanálise? Entendendo alguns setores da psicanálise por um Nome Próprio não como algo a ser exclusivamente chamado como signo de alguém, mas sim como um dos significantes que pode pertencer a uma rede coletiva de Outros significantes de outrem. E para a psicanálise a diferença no Nome mora nesta rede que detém o verdadeiro significado daquele nome.

Em outras palavras: é como se um nome não representasse apenas o indivíduo que o carrega, muito menos o diferenciasse dos outros por conta própria. Para a psicanálise, um nome pode representar os desejos, as expectativas e a realidade em torno de quem o escolheu. E pode representar mais ainda na interpretação que é feita por quem recebeu este nome. Se alguém é chamado de João por conta do nome de seu avô que morreu, então o nome João, enquanto palavra, está ligado a um sem-número de outras palavras que detiveram muito significado e muita emoção na memória de quem escolheu.

Conforme já disse um psicanalista uma vez:

“Deus não nomeia as bactérias!”

(LACAN, 1975-76/2007).

Neste sentido, “João”, enquanto palavra, não seria distinguidor nenhum, mas sim o conjunto de características que seriam atribuídas a este nome ao longo da vida de quem o recebe. Então João, para se tornar finalmente detentor de seu Próprio Nome, e aí se distinguir dos outros precisaria ser muito mais do que um representante de seu avô. E este “ser muito mais” é a história que João viverá, que será resumida por novas palavras, palavras estas que poderão se tornar sinônimos de emoções, memórias e significados na mente de quem diz seu nome.

Contudo, a psicanálise nem sempre é tão otimista. Em um cenário oposto, João poderia passar o resto de sua vida tentando se encaixar nas expectativas que foram colocadas em torno daquilo que o representa na mente de quem escolheu seu nome. E poderia fazer isso em troca de uma das moedas mais caras da humanidade: o amor. E quem aonde isso levaria João. Aliás, até onde pode ir alguém que se identifica puramente, mesmo que inconscientemente, ao nome que recebe? Sabe-se lá quantas coincidências encontraria em seu comportamento, empregado para que fosse aceito no mundo, com a palavra que o trouxe oficialmente a este.

Dessa forma, pode-se dizer que o nome próprio faz tudo o que pode para se fazer […] em torno do qual se acumula o que concerne ao saber.

(LACAN, 1975-76/2007, pp. 86-87).

Sobrenomes

Neste outro texto, que traz mais algumas fontes para completar nossa investigação, vimos que a linguística fala alguma coisa a respeito do sobrenome do indivíduo. Esta entende que este vai lhe designar como posse de determinada história, podendo até partir da origem do nome de alguém que lhe precedeu (Ex: José Fernandes é o José, que é filho de Fernando); do lugar que nasceu ele ou algum de seus familiares (Ex: José Ribeiro provavelmente vinha de uma comunidade próxima a um Rio); ou de uma profissão (Ex: José Ferreira, era de uma família de ferreiros) ou até uma característica, uma alcunha, apelido (jocoso ou não) dado a si ou à sua família: José Branco, provavelmente se refere a alguém, ou descendente deste, que era frequentemente lembrando por esse tom de sua pele.

“A identidade histórica de cada um de nós está indelevelmente impressa no DNA do sobrenome”, […]”.

(FRANCIAPANE, 2007, p. 8 apud FROSI, 2014)

Nome e Sobrenome não são escolhas nossas, pelo contrário: são narrativas de quem seríamos a dentro da história de Outros. Herança de seres, lugares, comportamentos e objetos que talvez jamais tenhamos acesso. De alguma forma, há nos nomes um aspecto de quem somos, que viaja em tempo real em furos nos simbólicos registros de cartórios. Alguns podem até ter certa referência do imaginário popular, mas todos trazem uma pré-história de algum tal de exclusivo, ou quase.

Em “O Sujeito Lacaniano: Entre a linguagem e o gozo” (1998), o psicanalista norte-americano Bruce Fink lembra de um “lugar garantido à criança no universo linguístico de seus pais”, algo que “vem antes do sujeito”, ao falar do Nome Próprio, dentro da obra do psicanalista e psiquiatra Jacques Lacan (1901-1981).

É como se de alguma forma:

“O nome doado e conhecido coloca o receptor (quem recebe o nome) no centro de convergências positivas e negativas, ou de vetores de forças que definirão personalidades e comportamentos, condutas e estilos de vida, tornando nome e indivíduo uma só entidade”

(DICK 2000:218 apud SEABRA, 2006).

É paradoxal de se pensar que em uma das posses mais exclusivas de alguém soma-se tanto dos outros. Em verdade, parece haver no nome algum tipo de condenação: aquele sujeito carregará os traços que marcaram aquela gente que quem descente, no sobrenome — e provavelmente o desejo dos pais, no nome escolhido.

Transmitido de geração a geração, o nome ou o apelido de família carrega em si todas as marcas da descendência gentílica, não sendo por isso de livre escolha dos cidadãos. A imposição obrigatória do que se convencionou chamar, atualmente, de sobrenome, é o seu traço distintivo, em oposição ao prenome, fruto de um ato volitivo dos pais. […] Desse momento em diante, representado pela doação do nome, a criança será levada a familiarizar-se mais intensamente com essa expressão sonora identificada como o seu “repraesentamen” simbólico. Do mesmo modo, esse apelativo será a forma lingüística mais constantemente repetida, em todas as situações em que venha a ser o foco da atenção”
(DICK 2000:218 apud SEABRA, 2006)

Será que uma mente, como a do ser humano, que passa a vida inteira procurando alguma espécie de sentido da vida, de razão da existência ou de alguma narrativa que explique quem se tornou, poderia de alguma forma, construir-se escorado no entorno de sua Própria Denominação?

Jair Messias Bolsonaro

Já sabemos muita coisa sobre o que cercou a história do sobrenome de Bolsonaro. Nas outras partes deste artigo aprendemos em que contexto viveram seus antepassados, os possíveis significados que podem representar alguma forma de “tradução” ao seu sobrenome e também esbarramos aqui em algumas definições em torno deste conceito de Nome Próprio.

Se lá atrás falamos diretamente de seu sobrenome, agora, ao final deste longo artigo de três partes, falaremos de seu nome completo.

Um Milagroso Artilheiro

Jair Rosa Pinto

O caso de Jair Messias Bolsonaro. A escolha de seu primeiro nome “Jair” parece ter sido decorrente de um meia do Palmeiras, seu atual time de coração, à época de seu nascimento: Jair Rosa Pinto. Que também jogou na Seleção Brasileira. E seu nome do meio precisava ser Messias, por exigência de sua mãe, uma vez que a gravidez complicada que esta tivera não explicaria o nascimento do filho senão pela presença de um milagre de Deus (BOLSONARO, F. 2017).

Mas então será que…

Cena do Batismo de Jair Messias Bolsonaro, conduzido pelo Pastor Everaldo (PSC) no Rio Jordão, em Israel.

Se há alguma conexão entre o comportamento beligerante, a fixação por armas de fogo (e aqui não falamos necessariamente da extensão do falo proposta por Freud) e a suposta religiosidade onipresente no discurso de Bolsonaro, com as origens de seu nome é impreciso dizer.

Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil pensar em outro contexto em que estariam juntos o dardo de uma besta medieval, que também pode ser o ferrolho de uma arma de fogo ou das portas de uma cela; juntos com o artilheiro da Copa América de 1949 (9 gols) e um messiânico salvador de uma terra tomada por pecadores. E haveria alguma ligação de tudo isso com seu comportamento?

Para começar a responder isso, precisaríamos primeiro partir do ato de pensar em alguma forma de não retratar o Capitão como um agressivo, retrógrado e “terrivelmente evangélico” Presidente armamentista que insiste em dizer: “Deus Acima de Todos“. Podemos tentar negar este com todas as forças, teremos aí uma redução de muito do que fora aqui apontado como um conjunto de coincidências

Assim a gente respira. Assim é possível pensar que não temos um presidente narcisista que só serve para disparar ataques, ao invés de defender uma Nação. Muito menos que alguém que nasce no berço separatista da Itália, utiliza como tática de governo a separação do povo em duas categorias: a que o apoia e a que está errada. Assim é possível pensar que o Capitão não é, desde de seu nome, um ser meramente reduzido à agressividade primitiva projetada em armas de fogo/munições e à ideia megalomaníaca de ser o salvador, o Messias, de um povo manchado pelo vermelho do pecado dos novos costumes que se tornaram direitos.

Assim ficará mais fácil. Assim este artigo se tornará uma mera baboseira pseudo-intelectual esquerdista feita para atacar o Nosso Presidente. Se negarmos, mesmo em possibilidade, que o Chefe de nosso Poder Executivo não é limitado a sabe falar apenas dos únicos assuntos falou por sua vida inteira: estaremos a salvo. Vai dar tudo certo. Aqui não teremos a angústia de termos errado nas urnas.

A partir daí não estaríamos sendo co-responsáveis pela negligência com as milhares de mortes que o Brasil enfrenta na Pandemia de 2020. Muito menos consideraríamos imprópria a administração do Capitão de Artilharia que ganhou o mesmo nome de um artilheiro da Seleção Brasileira.

Se tudo isso que este artigo apresentou for uma mentira deslavada, fake news de vagabundo desocupado, então nós apenas salvamos o Brasil do comunismo e o deixamos carregado por boas mãos: do tipo que municiariam perfeitamente, com um dardo, a Besta Medieval de um Capitão de Artilharia do Exército da Idade Média, onde o saber de Deus estava acima de todos, inclusive da Ciência.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

João, 8:32. Bíblia Sagrada.

REFERENCIAS UTILIZADAS NAS TRÊS PARTES

BOLSONARO, Flávio (2017). Jair Messias Bolsonaro – Mito ou Verdade. Rio de Janeiro: Altadena Editora.
DE FELICE, Emidio – Dizionario dei cognomi italiani. Milão: Mondadori, 2004.

DICK. M. Vicentina de P. do A. A Investigação Lingüística na Onomástica Brasileira. Estudos de Gramática
Portuguesa III. Frankfurt am Main, v.III, p.217-239, 2000

DICK. M. Vicentina de P. do A. A Investigação Lingüística na Onomástica Brasileira. Estudos de Gramática
Disponível em: <http://goo.gl/lHeJ0t&gt;. Acesso em: 26 mai. 2020.

FRANCIPANE, Michele – Dizionario ragionato dei cognomi italiani. Milão: RCS Libri, 2006

FROSI, Vitalina Maria. Sobrenomes italianos: um estudo onomástico. Signum: Estudos da Linguagem, [S.l.], v. 17, n. 2, p. 389-412, dez. 2014. ISSN 2237-4876. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/signum/article/view/18397&gt;. Acesso em: 26 maio 2020. doi:http://dx.doi.org/10.5433/2237-4876.2014v17n2p389.

LACAN, J. (1961-62) O seminário: a identificação. Inédito.

LACAN, J. (1975-76) O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

LACAN, J. (1964-65) O seminário, livro 12: problemas cruciais para a psicanálise. Inédito.

SEABRA, M. C. T. C. de. Referência e onomástica. In: Múltiplas perspectivas
em Linguística: Anais do XI Simpósio Nacional e I Simpósio Internacional de Letras e Linguística (XI SILEL). Uberlândia: ILEEL, 2006. p. 1953-1960.
Disponível em: <http://goo.gl/lHeJ0t&gt;. Acesso em: 26 mai. 2020.

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0502200913.htm

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45973980

https://recordtv.r7.com/camera-record/ator-que-interpretou-bozo-revela-que-usava-crack-antes-de-entrar-no-palco-fumava-30-pedras-por-dia-13092018

https://en.wikisource.org/wiki/An_Etymological_Dictionary_of_the_German_Language/Annotated/Bolz

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