As origens históricas do Nome de Bolsonaro explicariam seu comportamento?

As origens históricas do nome de Bolsonaro explicariam seu comportamento?

Aviso: este artigo faz parte de uma série dividida em três partes: A História (Parte 1) e a Teoria (Parte 2).

A História — Parte 1: o contexto histórico, geográfico, antropológico e político da região onde se instalam os ascendentes italianos de Jair Messias Bolsonaro e o significado de seu nome.

A Teoria — Parte 2: considerações linguísticas e psicanalíticas a respeito da teoria do Nome Próprio em conjunto com uma possível articulação entre as duas primeiras partes.

Você poderá acessar diretamente cada uma das partes clicando nos links acima ou a seguir:

Você está lendo a Parte 1.

Clique aqui para acessar a Parte 2.

O Nome que Preside uma Nação

O Brasil é um país de imigrantes. Além dos povos originários, indígenas, nossa população também foi povoada pelo sofrimento de pessoas de múltiplos países do Continente Africano através da escravidão. As etnias dessas pessoas se misturou, ao longo do tempo, com a de povos portugueses, espanhóis, holandeses, alemães, búlgaros, libaneses, italianos e há ainda mais a se contar.

Mas para este artigo nos interessam os três últimos povos mencionados. Estes se tratam da origem dos três últimos Presidentes do Brasil, respectivamente: Dilma Rousseff, Michel Miguel Elias Temer Lulia e Jair Messias Bolsonaro. Este último, nosso atual Presidente.

Aos que queiram saber mais sobre a origem dos outros Presidentes, fica a recomendação do livro Os presidentes: a história dos que mandaram e desmandaram no Brasil, de Deodoro a Bolsonaro.

Este artigo tratará exclusivamente do nome Jair Messias Bolsonaro, mais especificamente da origem do nome Bolsonaro.

O Nome Bolsonaro

Uma leitura geográfica, histórica, política e quem sabe, se der tempo, até linguística e psicanalítica. A leitura sobre uma viagem que começa na Invasão Romana aos Povos Celtas, evoluindo para o Norte da Itália e passando pelo sudeste do Brasil, com o destino final ao Planalto Central. Se a linguística já nos contava sobre as particularidades de um nome, a psicanálise tentou contar um pouco mais sobre a ação desta partícula que se articula ao redor de cada um dos átomos de um Sujeito.

O nome é um carimbo que algumas vezes existe até antes do papel, ou seja, muitas vezes o nome de alguém pode ser decidido antes mesmo da existência desta pessoa. Às vezes as condições do nascimento são determinantes à nomeação de alguém, às vezes se trata de uma homenagem, e Bolsonaro tem dois de seus nomes sob esta condição. E se o nome já é tudo isso, quem dirá o sobrenome? Um viajante que atravessa montanhas, oceanos e gerações. O quanto desta história pode ainda subsistir dentro de quem a carrega? É o que tentaremos discutir neste texto a respeito de Jair Messias Bolsonaro.

Anguillara Veneta - Frigus. Accoglienza nelle campagne a sud di Padova

Anguillara Veneta, no Norte da Itália foi a última cidade onde os antepassados diretos de Bolsonaro estiveram antes da fixação no Brasil.

Nord D’italia: A Origem de Bolsonaro é Italiana ou Não?

Após a eleição do primeiro turno, a BBC realizou uma pesquisa jornalística a respeito das origens do sobrenome de Jair Messias Bolsonaro, atual presidente do Brasil, com origens na Itália. Mais precisamente no Norte da região.

Soube-se de alguma coisa através de conversas com outros de seu nome nas cidades de Anguillara e também em San Martino di Vinezze, província do Vêneto, no Norte da Italia. Região, inclusive, governada por Luca Zaia, da Liga (antiga Liga Norte), a mesma do Ex-vice-primeiro-ministro e Ministro do Interior, Matteo Salvini, considerada conservadora e até de extrema-direita por alguns setores da política local. O motivo deste rótulo é pelas ideias separatistas do partido, que têm um berço na mais longa história da região. E mais recentemente houve apoio majoritário da população a um referendo para que esta região fosse autônoma à Roma, a princípio por razões econômicas, mas tudo se relaciona a esta mesma história que explica, em parte, os motivos da partida da família de Bolsonaro para o Brasil.

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“A busca por mais autonomia é justificada com o argumento de que o povo da ‘Padânia’ seria descendente dos celtas e não dos antigos romanos”.

– Jan Labitzke, cientista político , especialista em Itália da Universidade de Giessen, na Alemanha.

Ao que parece o povo de Vêneto, sua maioria, não se considera Italiano. E há raízes históricas bem definidas para isso. E é exatamente por este motivo que seria um descuido dizer que o nome de Bolsonaro é italiano, pelo menos não sem antes contar um pouco sobre a história desta região.

A História de Vêneto

A região de Vêneto, ao Norte da Itália, tem sua história contada em grande parte por suas fronteiras. E há duas fronteiras que devem ser destacadas aqui para uma tentativa de buscar historicamente seu sentimento de não ser italiana. Na sua fronteira oeste, faz divisa com a Lombardia que tem sua fronteira diretamente ligada à Suiça;ao extremo norte, a própria província de Vêneto encontra seu limite com a Áustria, juntamente com a província de Bolzano — e este nome é importante ao conteúdo do texto — (o Tirol do Sul).

Antes da ocupação do Império Romano, a Terra Natal da Família Bolsonaro era chamada de Gália Cisalpina, região habitada pelos Gauleses, isso mesmo, o povo de Asterix, um conjunto de Populações Celtas. Mas origem do povo de Vêneto é muito anterior à dos povos Romanos. Foi na Idade de Bronze (3000 a.C. – 1200 a.C) que se estabeleceu ali o povo de Euganea e, adiante, os Vênetos, de origem indo-europeia, da longínqua Plafagonia (atual Turquia) após a destrução de Tróia — isso mesmo: Tróia, da Ilíada, onde segundo Homero foi atingido o Calcanhar de um dos maiores Guerreiros Gregos que temos conhecimento — assim foi-nos contado pelo escritor latim-padovano Tito Livio. A região se desenvolveu de maneira belíssima, sendo composta ao norte pelo Réticos, ao sul pelos Etruscos, ao leste pelos Ilíricos e, é claro, no oeste moravam os nossos amigos Celtas. Contudo, não levou muito para que a região fosse tomada pelo Império Romano.

Os Celtas eram conhecidos por serem povos que usavam calças (coisa incomum à época) e por pintarem seu rosto e corpo de tinta azul antes de irem ao combate. Acreditava-se que era uma tática para assustar seus inimigos. Ilustração feita por Angus McBride.

Mesmo após a queda do Império dos Césares, a região sempre passou de grandes conflitos a grandes feitos, sempre encontrando alguma forma de se desenvolver. Um lugar que foi o berço de Marco Polo, Vivaldi e Casanova não por um acaso: a preservação da cultura e do trabalho local a tornaram a região mais desenvolvida da Itália durante muito tempo. Mas suas dificuldades se atualizam com a chegada de Napoleão Bonaparte, que cedeu a região à vizinha Áustria por cerca de 60 anos, até que em 1866 o Vêneto se torna parte do Reino de Itália.

Ao seu lado, as regiões da Lombardia, lar dos Lombardos, povos germânicos que ali habitaram até a tomada pelos ancestrais de Napoleão, sim, os Francos. Não muito longe a região Bolzano, lar dos famosos tiroleses, na região dos Alpes e parte do Sacro Império Romano Germânico, está prestes a ter sua história cambiada de maneira significativa.

Imagem do Museu Messner da Montanha Corones, localizado na Província de Bolzano – Tirol do Sul, Itália. É possível ver os Alpes, percorridos antigamente por Carlos Magno.

Neste momento de virada secular, a região começa a enfrentar as dificuldades da transição do Século XIX para o Século XX. E, finalmente, foi com a Primeira Guerra Mundial que sua crise se torna um estopim para uma grande imigração de seus povos pelo mundo. Principalmente para a Argentina e para o Brasil.

Dado importante: Com o fim da Primeira Guerra a Região de Bolzano passa a ser parte da Itália, junto com a Província de Trento. E este é um fator importante para indagarmos por que a origem do nome Bolsonaro também poderia ter fontes germânicas. Mas sobre esta última parte, falamos de possibilidades, o saber será exclusivo de um melhor condutor da pesquisa aprofundada que o tema pode pedir. Mas até aqui já é possível pensar em possibilidades para que o povo separatista, ao Norte da Itália, se considere Celta e Germânico ao invés de Romano, Italiano em si. E isso diz muito sobre os referendos que a Liga Norte conseguiu emplacar.

Curiosidade: os fundadores da Sociedade Esportiva Palmeiras, time do coração do Presidente, também tem origem no Norte da Itália.

Mas artigo a seguir tratará de outra coisa. Vamos ao que interessa: Na mira: A Origem do Nome Bolsonaro: o Significado.

As Origens do Nome Bolsonaro

Após uma contextualização da história característica da Província de Vêneto, poderemos finalmente falar sobre os aspectos mais centrados na cidade onde se tem registrada a última instalação da família de Bolsonaro antes de vir ao Brasil. Esta introdução será seguida pelo assunto principal: as peculiaridades deste nome que viajou pelo Atlântico.

Foto oficial de Jair Bolsonaro como o 38º presidente da República.

Dentro da região do Vêneto, sabe-se de uma localidade chamada Anguillara, uma cidade predominantemente rural. Mas que se sustenta muito bem. De uma população pacata e calma na cidade moram pessoas quase que sem ideia que um Presidente do Brasil possa ter compartilhado a mesma grama cortada de sua Paróquia principal. E parece que é aqui que tudo começou.

Animais praticamente excluídos da Europa ainda vivem por lá, inclusive os burros, por exemplo. Mas a região tem também cabras e cavalos, e naturalmente o gado também está por todo lado. Isso é devido ao alto nível de conservação da cultura campestre —o que a torna um ambiente provavelmente silencioso, calmo e sereno.

Anguillara (foto) e San Martino di Venezze têm ambiente predominantemente rural (Imagens BBC Brasil).

Foi nesta localidade em que se fixou uma família dedicada à agricultura e ao comércio. Aparentemente de pessoas simples, desconhecidas por quem não havia esbarrado em algum de seus membros. Uma família em que provavelmente não se imaginaria à época que um de seus descentes poderia se tornar Presidente de uma República do Novo Mundo: os Bolzonaro.

Suas origens antes deste período não foram explicitadas na reportagem da BBC que realizou a pesquisa que possibilitou este artigo. Mas, conforme explicado na Parte 1 deste artigo, há imagináveis indagações a respeito da província de Bolzano, mais ao Norte. Mas para que isso saia do patamar de especulação, uma pesquisa de maior complexidade teria de ser feita por quem tenha interesse em aprofundar os estudos nas origens família Bolsonaro. Com certeza mais informações serão muito bem-vindas na sessão de comentário deste texto.

Como os Bolzonaro chegaram ao Brasil?

Em busca das origens do nome Bolsonaro, a BBC contou com a ajuda do prefeito de Anguillara, Luigi Polo, desses que sabem tudo da história local. A sabedoria do governante em relação à cultural local foi crucial para um primeiro indício de como uma família, que predominantemente apenas pisava em grama fresca no interior do norte da Itália, chegou à Presidência da República Federativa do Brasil.

Igreja e paróquia de Anguillara, local onde se obteve registro de antepassados diretos de Jair Bolsonaro, na região do Vêneto, Norte da Itália.

Em uma pequena igreja na Cidade de Anguillara soube-se que, no final do Século XIX, nascia Vittorio Bolzonaro. Pouco se sabe de sua vida de garoto, mas há o registro que este menino, que emigrara ao Novo Mundo com apenas 10 anos de idade, é o Bisavô do atual Presidente do Brasil. Não deve ter sido fácil e nem inteligível entender os motivos para sua vinda, que muito provavelmente se relaciona ao forte contexto de crise na região, que há pouco deixava de ser domínio da Áustria. Vittorio Bolzonaro chegava ao Brasil de mãos dadas com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos.
E uma coisa foi perdida no caminho desta longa viagem: seu antigo sobrenome. Descendentes de Italianos sabem do que eu estou falando: alguns nomes e, mais ainda, sobrenomes, não atracam intactos em uma viagem transatlântica. Ainda mais para o Brasil. Os Bolzonaro também não escaparam desta. Entre o embarque em Gênova e alguns passos além do Porto de Santos, naufragam-se os Bolzonaro e nascem os Bolsonaro. Nome que se explica a partir do prefixo Bolzo, que conforme pronunciado no dialeto ou sotaque da região de Vêneto, tinha o “Z” som de “S”.

Documentos referentes a Vittorio Bolzonaro, que emigrou para o Brasil em 1888, aos dez anos. Imagens: BBC Brasil.

O que significa Bolzonaro?

Conforme já visto na Parte 1 deste artigo, foi necessário um mergulho pela história da Província de Vêneto para que se soubesse um pouco mais do contexto histórico, geográfico e antropológico que precedeu este naufrágio da letra “Z” nas profundezas do Atlântico.

Uma região Italiana que rejeita sua descendência Romana, que já fora parte da Áustria e habitada por povos Celtas. Vizinha de povos como os Lombardos que se consideram germânicos e também da região dos Alpes, chamada Tirol do Sul, onde uma Província autônoma em que quase 70% da população fala alemão leva o nome de Bolzano, muito parecido com este sobrenome.

Infelizmente, como já foi dito, não foi possível estabelecer uma relação direta entre Bolzano e Bolzonaro, mas adiante finalmente falaremos da origem deste sobrenome que deu origem ao Presidente do Brasil.

Réplica de uma Besta Medieval idêntica às utilizadas no Século XV na Itália.

Neste artigo a análise do nome de Bolsonaro limitou-se à primeira parte de seu nome, o prefixo Bolzon. Curiosamente, há uma comuna italiana chamada Naro, na região da Sicilia no extremo sul da Itália. Nossa pesquisa não permite estabelecer algum tipo de relação a esta segunda parte de seu nome, mas nos chama atenção, caso fôssemos pensar em relacionar, que neste caso seria um nome dividido em polos extremos da Itália — ao extremo norte e ao extremo sul, locais também permeados por polarizações políticas. Mas, como nossa pesquisa se limitou a região Norte e, consequentemente, à primeira parte do nome, seria descuidado prosseguirmos com tal tipo de especulação.

Contudo, encontramos um artigo que fala mais sobre as origens italiana da família: https://www.insieme.com.br/pb/taddone-revela-genealogia-de-bolsonaro/

Caso algum (a) leitor (a) tenha uma pesquisa da origem da segunda parte do nome de nosso Presidente, ou ainda confirme ou rechace algum tipo de informação em relação à comuna de Naro, será muito bem-vindo isso aos comentários e quem sabe em um novo texto.

Bolzon — A Munição da Besta Medieval

A BBC revela em seu artigo que segundo um dicionário com as origens dos sobrenomes de Vêneto, o nome Bolzonaro deriva de “Bolzon“, que significa “dardo”, “flecha”. E mesmo se buscarmos outras versões, que apontam uma origem germânica para este nome, o significado não se distanciaria tanto. Na verdade, mais ainda este se afunilaria às flechas (“Bolzen“, em alemão, “Bolt“, em inglês) típicas destes arcos com gatilho, as chamadas Bestas (crossbows) Medievais.

A flecha, o dardo (Bolzen, Bolt) da Besta Medieval (crossbow) é atribuída como a origem do radical Bolzon.

O Ferrolho

As ramificações de uma palavra dentro da mesma língua são possíveis por N fatores. Em geral um mesmo nome é dado à alguma inventada coisa que por semelhança, em algum nível, se liga ao que se nomeou primeiro com aquela mesma palavra. No caso de Bolt, Bolzen, que deram origem ao prefixo Bolzon, também foi encontrado na origem germânica e, logo, anglo-saxã (conhecida como a base das línguas inglesa e alemã) um outro tipo de objeto homônimo.

Indo para a história mais recente, houve algumas extensões deste mesmo signo na língua inglesa e também na alemã. Infelizmente o alemão de quem voz escreve se limita à pronúncia do tradicional prato à base de repolho (que, de alguma forma, também se tornou sinônimo uma música da Carla Perez que poderá ser ouvida clicando aqui). Então, com a licença do leitor, nos basearemos a seguir nas fontes em língua inglesa — que, conforme já explicado, devido às suas origens anglo-saxônicas compartilha os radicais e fonemas em explicação cabível — antes através da história que do acaso.

Imagem de um ferrolho (bolt) utilizado em carabinas.

As chamadas “bolt action riffles“, ou “espingardas por ação de ferrolho“, levam este nome exatamente por conta da existência de um ferrolho que é responsável pela manipulação de cartuchos para dentro e para fora da câmara da arma. A ação de inserir o novo e expulsar o cartucho que continha o projétil disparado, acontece através da alça (bolt handle) que fica à Direita da parte inicial da espingarda. Tal localização provavelmente se dá devido à maioria da população ser destra.

Uma espingarda Winchester Model 70, lançada em 1936, ganhando o apelido de “The Rifleman’s Rifle”. Um exemplo de arma por ação de ferrolho.

O ferrolho não é um mecanismo exclusivo das espingardas, mas das armas em geral. Na imagem a seguir é possível ver a existência dele entre as partes de uma pistola semi-automática desmontada. Contudo, na língua inglesa a parte que em português chamados de ferrolho, quando falamos de pistolas, é chamada apenas de barrel. Sendo o ferrolho como o conhecemos neste artigo, mais utilizados em rifles, chamado de Bolt Carrier.

PISTOLAS / COMPONENTES, MECANISMOS e FUNCIONAMENTO - YouTube

Imagem de uma pistola Taurus 638, calibre 380, desmontada em cinco partes, incluindo seu ferrolho.

Armas e Bolsonaro

As armas, conforme sabemos, são peças muito mencionadas no anterior e no atual discurso de Jair Bolsonaro. Recentemente, após a divulgação do vídeo da reunião ministerial do Governo, o Presidente diz querer a população armada como forma de se defender de algum tipo de autoritarismo. Contudo, sua fala pareceu não encontrar respaldo na população ouvida por pesquisas de opinião, apesar de agradar parte fiel de seu eleitorado.

Imagem das partes nomeadas de uma pistola Glock calibre 380. Um modelo semelhante à que foi roubada do então Deputado Federal e atual presidente da República, Jair Bolsonaro. A arma lhe fora subtraída em um assalto à mão armada, junto com sua motocicleta, em 1995.

Bolsonaro, que por ser Capitão da Reserva do Exército Brasileiro, possui porte de arma há muitos anos. Esta é inclusive daspautas que o elegeram à Presidência, alegando que uma população armada poderia defender sua propriedade e sua vida de ações criminosas. Porém, um trágico evento ocorrido em 1995 pareceu, de forma irônica, gerar um furo na associação direta que é feita ao porte de arma de fogo como forma de evitar se vítima de uma ação criminosa.

O então jovem Deputado Federal Jair Bolsonaro, na manhã de uma terça-feira em plena Zona Norte do Rio de Janeiro, é abordado e rendido por dois homens antes mesmo que pudesse sacar sua pistola Glock calibre 380, que fora levada junto com sua motocicleta pelos criminosos.

Página original da notícia do assalto sofrido pelo então Deputado Jair Bolsonaro.

Contudo, nosso significante não pára pelo caminho das armas. A palavra “Bolt” também não se limita às munições impulsionadas por bestas medievais e aos ferrolhos de armas de fogo. Há outro tipo de objeto que também é nomeado pela primeira parte do nome de origem do Presidente do Brasil.

O Aliado da “Porca”

É comum na língua inglesa que a mesma palavra que, conforme vimos, nomeou um dardo na Idade Média e também deixou a postos a munição de uma carabina, também ser associada a um parafuso. Sendo inclusive a primeira opção oferecida pelo Google Tradutor, que também a descreve como uma forma de pronunciar “raio”, destes que acompanham tempestades. O detalhe é que nesta variação linguística, “bolt” se trata especificamente do parafuso que precisa de uma “porca”. Sendo assim diferenciada dos outros pela palavra “screw“.

Parafuso (bolt) com porca (nut).

Contudo, esta parte do texto entra como forma adicional de informação. Mesmo que a intenção do texto não se dê como uma espécie de Guia dos Curiosos, consideramos importante a inserção desta parte para não parecer que houvesse aqui algum tipo de omissão de dados.

Ademais, as atribuições da palavra não param por aí. Parece que este é um signo que muito nomeia na língua inglesa. Encontramos mais uma atribuição concedida a esta palavra.

O Barulho Inesquecível

Imagem de do ferrolho de uma fechadura antiga, conforme era utilizado nas celas do DEOPS, em São Paulo. A imagem é da réplica de uma cela utilizada no Período Militar e hoje disponível para visitação no Memorial da Resistência em São Paulo.

A palavra “Ferrolho” também não é uma exclusividade das armas. “Bolt” e “Bolzen” também fazem menção ao Ferrolho utilizado como trinco nas portas. Seja nas modernas, em sua singela versão metálica, seja na versão mais arcaica — marcada pelas portas de casas antigas e, principalmente, em celas de prisões de tempos atrás. No Centro da Cidade de São Paulo, na região da Luz há um novo tipo de museu que possui uma porta destas: o Memorial da Resistência. Inaugurado em Janeiro de 2009, na gestão do Governador José Serra.

O Memorial da Resistência de São Paulo, uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo por meio de sua Secretaria da Cultura, é uma instituição dedicada à preservação de referências e memórias da resistência e da repressão do Brasil republicano (1889 à atualidade). Foi feita ali uma musealização de parte do edifício que foi sede, durante o período de 1940 a 1983, do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo – Deops/SP, uma das polícias políticas mais truculentas do país, principalmente durante o regime militar.

O Memorial da Resistência, anteriormente a sede do DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo), procura retratar as versões de um lado da história recente do Brasil: o relato de militantes e ex-militantes de esquerda que ficaram ali detidos durante oRegime Militar (1964-1984). Quem visita o local se depara com imagens, vídeos e até peças originais da época.

Há uma parte deste museu, talvez a mais visitada que replica uma parte do que fora vivido naquele local. Baseado em relatos de pessoas que ficaram presas ali e de seus familiares, as antigas celas do DEOPS foram reconstruídas com o máximo de detalhes que foi possível replicar. Há o corredor das celas, que podem ser visitadas também, bem como o local onde os presos tomavam banho de sol, um estreito corredor nocivo às pessoas claustrofóbicas. Dentro das celas é possível de ser ouvido o relato de quem esteve ali. Sabe-se um pouco do que ali ocorreu através das gravações, em um fone de ouvido disponível próximo à parede cheia de inscrições de nomes riscados com força na tinta que a reveste.

Do lado de fora da cela, a forma dos escritos já é menos emblemática, sendo compensada por seu conteúdo, que é escrito de forma mais contemporânea:

“Tinham sons que eram terríveis: o barulho da chave, do ferrolho”

As próprias obras expostas no local não tornam difícil imaginar o que poderia haver de tão terrível em um simples barulho de chaves que precede a abertura de uma porta por seu ferrolho. Infelizmente a capacidade de associação do cérebro humano é capaz de ter representantes tão simples, como sons comuns do dia-a-dia, a cenas terríveis que os precederam ou sucederam em momentos traumáticos de nossa vida. Conforme explicado adiante:

“Dependendo da maneira como o carcereiro abria a porta, a gente percebia o que era; se era para chamar alguém para a tortura, se era alguém chegando, se era a comida vindo”.

É possível que estas citações acima, expostas no corredor das celas replicadas tenha sido responsável pelo que pareceu ser, em minha visita, a trilha sonora escolhida para o local. O ferrolho foi um dos sons que mais ouvi por lá. É como se, uma vez imersos naquela prisão política in vitro, os visitantes não se contentassem com o angustiante relato de quem passou por ali. É como se seus corpos pedissem uma exposição real ao som que revestiu de medo as almas que estiveram por ali. São constantes as “puxadas” dadas naquele ferrolho por quem tenta escutar o barulho descrito pelos antigos presos políticos.

Jovens escutando os relatos em áudio de pessoas que ficaram presas nas celas do DEOPS no Memorial da Resistência.

E o que isso poderia ter a ver com Bolsonaro? Pouco sabemos. Mas por coincidência ou não ele é um dos políticos que mais mencionou o Regime Militar do Brasil. É uma das vozes que nega que houve uma Ditadura Militar no Brasil. Por vezes sendo um grande defensor do período em que ele mesmo louva os militares que, em 1968, impuseram o AI-5 para conter s Terror. E é importante dizer que isso é uma réplica de suas palavras.

Imagem de Réplica de Cela do DEOPS no Memorial da Resistência (São Paulo). Na imagem é possível ver a porta de ferrolho, colchões de palha ao chão, encostados nas paredes que contém inscrições de nomes e datas das pessoas que passaram por lá.

Seria tendencioso demais dizer que Bolsonaro louva o período militar apenas pela semelhança do sufixo de seu sobrenome ao ferrolho das portas de uma das carceragens que eram usadas naquele tempo. Mais tendencioso ainda seria dizer que seu interesse por armas está amplamente relacionado à raíz anglo-saxônica da palavra que reveste seu batismo. E não estamos dizendo isso. Contudo, este artigo pode ser considerado um explicitador de coincidências — e provavelmente seja esta mesma a sua utilidade, para que quem lê possa mais do que obter respostas, mas também compartilhar dos questionamentos e indagar se tratam-se de coincidências ou incidências do inconsciente os esbarrões de seu nome em seu comportamento.

Bom, até aqui o (a) leitor (a) já conheceu a coincidência semântica que é o nome de Bolsonaro. E antes que lhes sejam apresentados os conceitos, que permitirão fazermos indagações sobre o que um Nome Próprio pode implicar na vida psíquica de um sujeito, vai uma curiosidade contemporânea que permeia o vocabulário de um lado da história.

Curiosidade: De Bolzo à Bozo

Na primeira noite do Carnaval de 2020, a escola de samba carioca Acadêmicos de Vigário Geral, levou um carro alegórico com a imagem de um palhaço de cabelo e maquiagem semelhantes à do Palhaço Bozo, vestindo uma faixa presidencial semelhante à que veste o Presidente do Brasil.

Coincidentemente, opositores à candidatura, ao governo e à pessoa de Bolsonaro, encontraram a letra perdida na tradução fonética de seu nome nos cartórios. E parece que também eliminaram deliberadamente o “L”, que lhes parecia sobrar por lá: a receita de uma alcunha (não tão criativa, é preciso dizer, caso alguém tenha curiosidade sobre a opinião pessoal de seu interlocutor).

Não é incomum que nas redes sociais, as novas cordas vocais da voz rouca, enfraquecida e monótona de uma esquerda que respira com ajuda de aparelhos no Brasil atual, o presidente seja nomeado, fonética e metonimicamente como um conhecido palhaço.

Chamam-no de Bozo, sabe-se lá se pela controversa e toxicômana vida que levava o ator que fazia o histrião infantil na televisão dos anos 80 — que, em tese, deveria ser um bom exemplo —, ou se pela mera tentativa de pejorativamente colocá-lo ao ridículo — aquele que é digno de riso — do imaginário popular.

Aviso: aqui se encerra a primeira parte do artigo, mas ele tem continuação. Na Parte 2 do texto, apresentaremos as considerações teóricas linguísticas e psicanalíticas a respeito do que é um Nome Próprio.

Você poderá acessar a Parte 2 deste artigo clicando aqui.

REFERENCIAS UTILIZADAS NAS TRÊS PARTES

BOLSONARO, Flávio (2017). Jair Messias Bolsonaro – Mito ou Verdade. Rio de Janeiro: Altadena Editora.
DE FELICE, Emidio – Dizionario dei cognomi italiani. Milão: Mondadori, 2004.

DICK. M. Vicentina de P. do A. A Investigação Lingüística na Onomástica Brasileira. Estudos de Gramática
Portuguesa III. Frankfurt am Main, v.III, p.217-239, 2000

DICK. M. Vicentina de P. do A. A Investigação Lingüística na Onomástica Brasileira. Estudos de Gramática
Disponível em: <http://goo.gl/lHeJ0t&gt;. Acesso em: 26 mai. 2020.

FRANCIPANE, Michele – Dizionario ragionato dei cognomi italiani. Milão: RCS Libri, 2006

FROSI, Vitalina Maria. Sobrenomes italianos: um estudo onomástico. Signum: Estudos da Linguagem, [S.l.], v. 17, n. 2, p. 389-412, dez. 2014. ISSN 2237-4876. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/signum/article/view/18397&gt;. Acesso em: 26 maio 2020. doi:http://dx.doi.org/10.5433/2237-4876.2014v17n2p389.

LACAN, J. (1961-62) O seminário: a identificação. Inédito.

LACAN, J. (1975-76) O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

LACAN, J. (1964-65) O seminário, livro 12: problemas cruciais para a psicanálise. Inédito.

SEABRA, M. C. T. C. de. Referência e onomástica. In: Múltiplas perspectivas
em Linguística: Anais do XI Simpósio Nacional e I Simpósio Internacional de Letras e Linguística (XI SILEL). Uberlândia: ILEEL, 2006. p. 1953-1960.
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https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0502200913.htm

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45973980

https://recordtv.r7.com/camera-record/ator-que-interpretou-bozo-revela-que-usava-crack-antes-de-entrar-no-palco-fumava-30-pedras-por-dia-13092018

https://en.wikisource.org/wiki/An_Etymological_Dictionary_of_the_German_Language/Annotated/Bolz

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